quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

atingidos pela chuva no RJ mandam recados a parentes


Dinorah Lourdes Freiman, de 42 anos, está em Vargem Grande, em Nova Friburgo, e manda um recado para sua irmã, Lara. “Estamos bem. A Filomena (irmã que teve a casa destruída pela chuva) está com a gente, e a filha dela também está bem. Agradecemos a todos pela ajuda”


O lavrador Marcelo Moura, morador de Pilões, tem parentes em São Paulo e no bairro Campo Grande, no Rio de Janeiro. Ele manda avisar que está tudo bem com sua família, que apenas sofreu perdas materiais na propriedade rural. “A tia Margarida e o tio Nelson estão em São Paulo, e a tia Noêmia, no Rio de Janeiro. Estamos todos bem. Estou aqui no Brizolão do Olaria e queria ter notícias deles.”


Dona Maria Adenildes Dias da Silva, 49 anos, moradora de Nova Friburgo, não tem notícias do filho, Marcos Vinícius Dias Gomes, 22, morador de Barra Alegre, distrito de Bom Jardim: “Desde segunda-feira não tenho informações dele. Eu não sei se ele está bem.” Dona Maria também procura informações da sobrinha Sonia Maria da Costa e manda avisar que está bem e abrigada no Brizolão de Olaria, em Nova Friburgo. Contato: (22) 9206-0399


Marinete dos Santos, moradora do bairro de Olaria, em Nova Friburgo, procura pela irmã, Márcia dos Santos da Silva, que mora em Sumidouro, área rural da Região Serrana: “Não tenho notícia dela, contato nenhum. Meu pai e minha mãe estão muito preocupados, mas eu não tenho como buscar notícias dela. Desde terça-feira que a gente não tem contato nenhum dela e não sabe se aconteceu alguma coisa.” Notícias sobre Márcia dos Santos da Silva podem ser enviadas para o número: 22-2522-3940.


Janira Cordeiro Egídio, de 45 anos, auxiliar de serviços gerais, Lisandra Egídio Lopes, estudante de 14 anos e Renato Brochado Lopes, 48 anos, auxiliar de serviços gerais, perderam a casa em Cuiabá. “Queremos mandar esta mensagem para a nossa família, em especial a minha avó, que mora em São José do Vale do Rio Preto, e de quem não temos notícia. A gente está vivo e bem. A gente espera que ela e toda a família estejam bem também.”


Octacílio Roberto Bertoldo, 61 anos, mandou seu recado para as filhas: “Quero mandar essa mensagem para as minhas duas filhas: Fabiana de Alcântara Bertoldo, que mora em Niterói, e Gracie de Alcântara Bertoldo, que mora em Botafogo, no Rio de Janeiro. Está tudo bem comigo. Perdemos a casa e tudo o que tinha dentro, mas graças a Deus estou com saúde e bem. Um abraço para vocês”, disse o motorista, que perdeu a casa no Vale do Cuiabá, em Petrópolis.


Elza José, de 64 anos, também perdeu a casa no Cuiabá, onde morava há mais de 30 anos. “Mando uma mensagem para João Maria, meu irmão, que mora em Leopoldina, Minas Gerais. Perdemos a irmã Maria, mas estamos bem. Um abraço e um beijo para você”


João Barbosa Silva, de 55 anos, mandou seu recado para os familiares em Minas Gerais: “Essa mensagem é para a minha família em Belo Horizonte. Estou bem. Perdemos tudo, mas estamos bem. Assim que as coisas melhorarem, tento falar com vocês”, disse o pintor.


João Pedro dos Santos, de 57 anos, perdeu a casa no Cuiabá. “Essa mensagem é para a minha família que mora na cidade de Lagarto, em Sergipe: Está tudo bem, graças a Deus. Mando um beijo e um abraço para vocês.”


Isabel Pulquéria de Faria Alves, de 68 anos, perdeu a casa no Cuiabá. "Quero mandar uma mensagem para meu enteado, José Antônio Alves, que mora em Mauá, São Paulo. O pai dele, Agostinho Alves, de 72 anos, está bem. Eu e a família estamos bem. Apesar de termos perdido tudo, estamos bem”, diz a doméstica


Maria da Silva, conhecida como Zizinha, manda um recado para a irmã, Margarida da Silva, que mora em Conselheiro Paulino: "Estou bem. Se você também estiver bem, mande notícias”. Ela morava em Córrego Dantas. A enchente entrou em sua casa. Agora, ela está no Ciep de Olaria


Marta da Rosa era moradora de Córrego Dantas. “Minha casa estava enchendo e não sei se ela está de pé. Quero que meu cunhado saiba que eu e meu esposo estamos no Ciep de Olaria. Venham nos buscar”, diz.


Ana Carla Cardoso, morava em Conselheiro Paulino e viu sua casa cair. Ela e os três filhos estão vivos. "Quero avisar a minha mãe, Maria Cardoso que estou bem. Assim que eu recebeu um dinheiro vou visitá-la em Vitória, no Espírito Santo", diz.


Marilia Tardim mora em Nova Friburgo e está atrás de seu sobrinho, Gabriel Hubach, de 1 ano e seis meses. Ele morava com os pais em Jardilândia. Os pais saíram do prédio que desabou e o menino está desaparecido. "Quero achar meu sobrinho. A família dele está toda atrás dele", diz
ela.


Viviane dos Santos mora em Jardim Califórnia, em Nova Friburgo, e é filha adotiva. Ela diz: "Minha casa não chegou a inundar, mas corre o risco cair. Eu saí de lá e vim para Olaria. Quero mandar o meu recado para as minhas duas mães, Belarnina do Carmo e Lindalva dos Santos, que moram em Caxias. Conseguimos sair da casa que inundou".


William Gervasio mora em Jardilândia e diz que a sua casa corre risco de desabamento. Ele foi morar em Olaria e avisa à mãe, que mora em Itaperuna, que ele e os dois filhos, Warlley e Wellerson, estão bem.


Alzira de Paula mora em Olaria e avisa a família que mora em Petrópolis que está bem. Alzira conta que viu, pela televisão, o sobrinho soterrado até a cintura e gostaria de ter notícias dos familiares.


Natália dos Santos, de 37 anos, está preocupada com o irmão. "Meu irmão mora em Campo Grande. Quero saber se ele está vivo. Estou muito preocupada. Também quero dizer a ele que estou na casa de amigos, mas estou bem".


Manuel Joaquim da Silva, de 53 anos, manda recado para a irmã. "Minha irmã mora na Serra do Capim, na roça de Teresópolis. Quero dizer que estou bem e pedir que ela tente me ligar. Não estou conseguindo entrar em contato".


Antenor Rocha, de 49 anos, diz que a família está bem. "Meus 16 irmãos moram em Araponga, Minas Gerais. Quero dizer a eles que eu e minha família de Teresópolis estamos bem e que a casa ainda está de pé, apesar do risco".


Elizeu Afonso, de 22 anos, procura notícias do irmão. "Meu irmão Elias veio do Rio, viu o corpo da minha prima e desapareceu, desesperado. Quero saber se ele está bem. Não sei se ele sabe que eu estou bem".


Sandra Costa de Lima, de 35 anos, está preocupada com a irmã. "Minha irmã Jaqueline mora na roça de Teresópolis. Não sei se ela está bem. Liguei, mas ninguém atendeu. Quero saber como ela está e dizer que eu estou viva. Que estou na casa de uma vizinha, para ela não se preocupar".


Patrícia Garcia de Barros, de 37 anos,está desabrigada. "Meus parentes moram aqui em Teresópolis mesmo, mas não estou conseguindo falar com eles. Quero dizer que estou bem, graças a Deus, mas minha casa acabou".


Gisele Cordeiro, de 32 anos, manda recado para o pai. "Ouvi dizer que meu pai, Dermival Cordeiro, está bem. Ele mora em Santa Rita. Quero que ele saiba que eu estou viva. Assim que eu puder, vou até lá".


Sueli Pereira, 27 anos, está no ginásio Pedrão, em Teresópolis, e manda recado para a mãe: "Minha mãe mora em Viçosa, Minas Gerais. Ela não sabe que eu estou viva. Sem casa, mas bem".


Cristiane dos Santos Machado, sócia da pousada Chalé Wood House, em Itaipava, distrito de Petrópolis, tem percorrido a áerea para distribuir donativos e encontrar a colega de trabalho Marília, de 18 anos, que está desaparecida. "Ela estava no Vale do Cuiabá, quando aconteceu a tragédia, e nunca mais foi vista. Meu Deus, como uma pessoa pode desaparecer assim? Não vou desisitir enquanto não tiver notícias dela", declarou.


Luiza Maria de Oliveira, 49 anos, está no ginásio Pedrão, em Teresópolis, e manda recado para a família na Baixada Fluminense: “Minha família mora em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Quero que eles saibam que eu, meus filhos e meus netos estamos bem, apesar de tudo”.


Pâmela do Carmo Araújo, 18 anos, está no Ginásio Pedrão, em Teresópolis e procura pelo marido: “Estou grávida de cinco meses e não sei se meu marido Izac Oliveira está vivo, mas se estiver, eu quero que ele saiba que nós estamos bem. Nós morávamos no bairro Campo Grande”.


Evandro Caetano, 68 anos, manda um recado para o filho, do ginásio Pedrão. "Ainda não consegui falar com o meu filho. Ele morava no Caleme. Parentes me disseram que ele tá bem. Mas ele não sabe que eu tô vivo, apesar de ter perdido filha e neta".


Joelma Conceição Araújo tem parentes em Jardinlândia e Nova Suíça, bairros afetados pela chuva em Nova Friburgo. Ela não tem notícia dos irmãos Michael, Rosimeire, Silvana e Monica. "Rezo por vocês. Fiquem tranquilos, saí de casa a pedido da Defesa Civil, mas minha casa não foi derrubada. Eu e Sabrina, Samara, Leandro e Jean estamos bem."


Nilséia da Silva dos Anjos, em Vieira, Teresópolis, diz: "Quero avisar a minha irmã Aldiléia, que mora em Rio das Ostras, que eu estou bem. Não consigo ligar, pois aqui o celular não pega. Meu filho perdeu a casa, mas está vivo".


Sérgio Damastor de Lins, de 43 anos, funcionário de hotel de Vieira afirma: “Meus parentes moram em Macaé. Como estou sem telefone, não consigo falar com eles. Estou bem e assim que puder, vou até lá".


Celeste Soares, de 42 anos, está em Vieira e diz: "Estou no abrigo, aqui no hotel. Minha família está em Miracema, Minas Gerais. Perdi tudo, mas estou viva. Gostaria que eles soubessem disso".


Renata da Silva, de 31 anos, moradora de Nova Friburgo manda um recado para o irmão Ricardo Moraes da Silva, que está em Niterói, na Regio Metropolitana do Rio. "Aqui está todo mundo bem. Fique tranquilo. Nossa casa não foi atingida, mas alguns de nossos vizinhos perderam tudo."


Lucilo Firmino dos Santos diz: "Moro no bairro Parque Maria Tereza e tenho família no Recife, Pernambuco. Quero avisar para as minhas tias que eu, minha esposa e
meus dois filhos estamos bem. Nosso bairro foi afetado, mas nossa casa ficou inteira".


Juliana Nascimento, de 12 anos, tenta estabelecer contato com a família que mora em Macaé. Ela acredita que os parentes estejam preocupados. Ela e a mãe Márcia, que moram em Riograndina, em Nova Friburgo estão bem. “Tias Elisângela, Cremilda, Elisania e Isabella podem ficar tranquilas que está tudo bem comigo. Nossa casa não foi atingida e não fica em área de risco. Mandem um beijo para o primo Bruno”.


Monique da Silva Marcelino, de 16 anos, moradora de Riograndina, em Nova Friburgo, ainda não conseguiu falar com os parentes que moram em Jardinlandia, outro bairro afetado pela chuva na cidade. "Quero dizer para o meu padrasto Ivo e para os meus irmãos Pedro Ivo, Letícia e Isabela que está tudo bem comigo e com a mãe. Estou rezando por vocês e espero que nada tenha acontecido aí na casa onde vocês moram”.


Tainá Ferreira, de 6 anos, ainda não conseguiu ver a avó que mora em São Geraldo, Nova Friburgo. Pelo G1, ela manda um recado: “Vó Marcinha, espero que esteja tudo bem com você. Te amo”.


Luis de Freitas Fully, aposentado de 60 anos, ainda não falou com os parentes que moram em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio. Ele diz que os deslizamentos de terra em Riograndina não afetaram a casa dele. “Quero falar para as minhas tias Berenice e Edir que está tudo bem comigo, com a Elza e com as nossas bisnetas Yasmin e Tainá”.


Lucilene da Silva está desde dezembro com a neta Laís de 4 anos e quer avisar para sua nora, Camila Santos, moradora de Magé, no Rio de Janeiro, que ela e Laís estão bem. "Moro no bairro de Jardim Califórnia, em Friburgo. Como é uma área de risco, tive que sair de lá, mas estamos todos bem", conta.


Adenair Vidal Amaral é moradora de Duas Barras. Ela quer dizer que está bem e quer saber notícias de sua filha Mônica que mora em Varginha, Friburgo.


Alexandre Alves Tupini, de 35 anos, é morador de Friburgo e deseja avisar para os pais que moram em Macuco, também em Friburgo, que está tudo bem. Ele está sem telefone e não consegue entrar em contato com a família. "Eles têm problemas de saúde e eu quero avisar que estou bem".


Dulcilene Vasconcelos de Oliveira, de 38 anos, mora no bairro de Conselheiro, em Nova Friburgo. Ela quer avisar para sua tia, Célia e para o amigo, Ralf Scott, que moram em Lumiar, que está viva. "Estou tentando telefonar, mas não consigo falar com eles", diz ela.


Elisabete da Costa Cardoso, moradora de Teresópolis, esteve nesta segunda-feira (17) em um abrigo no bairro Meudon à procura do primo, Marcelo Rodrigo da Silva, também de Teresópolis, que não dá notícias desde o dia do temporal. “É para meu primo entrar em contato com a irmã Adriana, que está atrás dele desde quarta-feira”, pede.


Ivete Benvindo, de 55 anos, que está desabrigada, manda recado para a prima Vera Lúcia da Silva, moradora de Iguaba Grande, na Região dos Lagos. “Eu quero falar que a minha casa desabou, tivemos que sair todos de lá, mas estamos no abrigo, bem. Eu e todos os meus filhos, para ela não se preocupar”, afirmou.


Aparecida Correa de Oliveira, de 41 anos, manda recado para a sobrinha Sueli Correa, que mora em São Paulo. “É só dizer para ela que a gente está bem, no abrigo. Nossa casa não caiu, só estamos esperando a Defesa Civil ir lá para saber se podemos voltar”, pediu.


Maria de Lurdes Vieira Soares, de 66 anos, está no abrigo do bairro Meudon, de Teresópolis, e manda um recado para a irmã Maria Olga Vieira Aguiar e a sobrinha Márcia Regina Vieira Quintanilha. Maria de Lurdes diz ter notícias de que o bairro onde vive a irmã não foi muito afetado pelas chuvas. “Queria que ela viesse ao abrigo me avisar. Quero saber como eles estão”, afirma.

Justiça britânica condena hotel que recusou gays em quarto de casal

Donos de hotel na Cornualha disseram que união homossexual contrariaca suas convicções cristãs

Martyn Hall e Steven Preddy

Peter e Hazelmary Bull, donos do hotel

Um casal de gays britânicos ganhou na Justiça uma ação contra um hotel que os proibiu de dividirem o mesmo quarto.

Martyn Hall e Steven Preddy, que vivem em regime de comunhão civil, processaram o hotel The Chymorvah House, na Cornualha, depois que os proprietários se recusaram a permitir que o casal dormisse no mesmo quarto duplo em setembro de 2008.

Peter e Hazelmary Bull, proprietários do estabelecimento, uma residência histórica na costa do vilarejo de Marazion, alegaram que a união do casal contrariava as suas convicções cristãs.

A Justiça de Bristol, onde vivem Hall e Preddy, entendeu que os donos do hotel agiram de forma discriminatória. Eles serão obrigados a indenizar cada um dos homens em 1,8 mil libras (cerca de R$ 4,8 mil).

Em um comunicado emitido após a decisão, o casal elogiou a decisão da Justiça contra o que chamaram de "discriminação direta" contra homossexuais.

"Quando reservamos o hotel, apenas queríamos um fim-de-semana relaxante, que é o que milhares de outros casais fazem todo fim-de-semana", declararam.

"Como queríamos levar nosso novo cachorro, perguntamos antes se ele seria aceito. Nem nos ocorreu que, na Grã-Bretanha de 2008, precisávamos perguntar se nós também éramos. O juiz Rutherford entendeu que a maneira como fomos tratados é um ato de discriminação direta e, portanto, contra a lei."

Brasil vai liderar força marítima da ONU no Líbano

Missão tem o objetivo de impedir a entrada ilegal de armas no país

Embarcações alemãs fazem a patrulha do litoral sul do Líbano; Brasil vai liderar força naval da ONU

O Líbano tem apenas 225 km de costa (pouco maior que o litoral de Pernambuco), mas um volume imenso de problemas. Em algumas semanas, o controle das conturbadas águas libanesas estará a cargo de um brasileiro, o contra-almirante Luiz Henrique Cariolli, que vai comandar a força tarefa marítima da ONU (Organização das Nações Unidas), a MAT.

Carolli vai liderar oito embarcações, com 800 oficiais e marinheiros de cinco nacionalidades. Sua principal tarefa será impedir a passagem de armamentos nas águas libanesas. O Brasil ainda estuda, por meio do Ministério da Defesa, a possibilidade de enviar tropas para a região.

A MAT, primeira missão de paz marítima da ONU, é subordinada à Unifil, a missão da ONU que desde 1978 patrulha a fronteira entre Líbano e Israel.

A região é reduto do grupo fundamentalista Hezbollah, que, além de ser um partido político, mantém uma milícia armada na fronteira, com ataques a Israel, que considera o movimento terrorista.

Nesta semana, o Hezbollah se retirou do governo libanês, provocando a queda do primeiro-ministro Saad al Hariri (que continua governando até passar o poder ao sucessor). A queda ocorreu porque uma investigação da ONU deve responsabilizar militantes do grupo pelo assassinato em 2005 do ex-primeiro-ministro Hafik al Hariri, pai do atual governante.

O episódio também pode reavivar a guerra civil libanesa (1976-1990), um conflito entre diversos grupos religiosos que destruiu o país. É com este cenário que o Brasil irá liderar a força naval da ONU. Além dos problemas atuais, o almirante Carolli tem outros desafios pela frente – estudos recentes mostram a existência de gás no subsolo da costa libanesa e de Israel. Poderá ser mais combustível para uma região já explosiva.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Egito vive clima de tensão religiosa após atentados

Ataque em igreja copta que matou 23 deixou cristãos do país alarmados.
Governo nega motivação religiosa em atentado que matou 3, na terça (11).

No Egito, onde a religião é informação que consta de todos os documentos oficiais de qualquer cidadão, como carteira de identidade e passaporte, qualquer mudança pode ser fatal. Duas histórias de amor e conversão foram o estopim para a série de incidentes que começou com o atentado que matou 23 pessoas em frente a uma igreja ortodoxa copta em Alexandria, na noite de Ano Novo, e segue desde então. No caso mais recente, na tarde da última terça-feira (11), um policial atirou em mulheres que não usavam véu dentro do vagão de um trem e assassinou o cristão copta Fathi Said Ebeid, de 71 anos.

“Aquele louco ia e vinha pelo trem procurando os cristãos. Vendo um grupo de mulheres e meninas que não usavam véu, concluiu que fossem cristãs e atirou”, manifestou-se publicamente o bispo Dom Morcos, da Igreja copta em Salamut, cidade da região de Minya, a 200 quilômetros ao sul do Cairo, onde aconteceu o incidente. O policial Amir Ashur Abdel Zaher, que estava fora do horário de trabalho e usou uma pistola da corporação, foi preso, mas as autoridades negam motivação religiosa para o ataque.

Mesquita construída sobre ruínas de templo do Egito Antigo, em Luxor

“Isso não tem nada a ver com a religião das vítimas, mas com o estado mental dele”, declarou o governador de Minya, Ahmed Diaa Al-Din, para quem o policial teria demonstrado frustração com o salário de cerca de 600 libras egípcias (cerca de R$ 175 reais).

Tenha sido religiosa ou não a motivação para este crime, as comunidades cristãs no Egito estão alarmadas. “Nós estamos sendo eliminados um a um”, gritou a irmã de Ebeid, Yvonne, durante o funeral, realizado na quarta-feira, no Cairo.

Religiosos católicos, que formam um grupo ainda menor no país, também têm expressado preocupação. O governo egípcio, laico, chamou de volta ao Cairo sua embaixatriz junto ao Vaticano, após qualificar como uma “ingerência inaceitável em assuntos internos” um pronunciamento do Papa Bento XVI que citava os ataques no Egito, além dos ocorridos nos últimos dias também no Iraque e na Nigéria, para pedir que esses governos garantam que cristãos possam praticar sua fé sem discriminação ou violência.

“Simplesmente, não converse sobre religião com ninguém aqui. Este é um assunto muito delicado e que costuma trazer problemas”, aconselhou o padre mexicano Alberto Sanchez, residente em uma paróquia católica de rito latino – o mesmo usado na maior parte das celebrações católicas no Brasil – no bairro de Zamalek, no Cairo, onde estão concentradas embaixadas e moradores estrangeiros.

Igreja suspensa em bairro copta no Cairo, Egito

A paróquia, fundada por missionários combonianos emigrados do Sudão em 1888, hoje não tem um sacerdote que seja egípcio por nascimento. Ela atende principalmente a comunidades de “refugiados da fome” da Eritreia e da Etiópia, mais ao sul do continente africano.

Segundo o padre Sanchez, há nove meses no país, os conflitos entre grupos islâmicos supostamente ligados a Al-Qaeda e cristãos, principalmente ortodoxos coptas, acirraram-se após o suposto sequestro de Camellia Shehata e Wafaa Constantine, duas mulheres ortodoxas que se converteram ao Islã para poderem casar-se com muçulmanos.

“De certa forma, pode-se dizer que existem duas grandes causas para a diminuição do número de cristãos no Egito: o preconceito que dificulta a ascensão social e o amor, já que muitas pessoas, sobretudo homens, precisam converter-se para casar-se com cidadãos islâmicos”, contou o padre.

“No Egito, as autoridades não entendem a religião como um assunto privado. Ela está estampada nos nossos documentos e na nossa pele”, disse a professora Nancy Fahman, mostrando a cruz copta tatuada no pulso direito quando ela ainda era criança. A tatuagem é costume entre os ortodoxos e foi, inclusive, utilizada pela polícia para identificar e permitir a entrada de fieis nas celebrações do Natal copta, comemorado no dia 7 de janeiro, nas igrejas, que tiveram segurança reforçada. Hoje, não há, no Cairo, uma igreja cristã que esteja sem proteção policial 24 horas por dia.

Sobre o suposto sequestro, Nancy, que tornou-se evangélica, conta que as mulheres Camellia e Wafaa teriam se arrependido da conversão ao Islã, o que não teria sido aceito pelos noivos e pela comunidade muçulmana. De acordo com o padre Sanchez, elas estariam refugiadas em um mosteiro. Porém, em entrevista a uma emissora de televisão local, o líder máximo da Igreja Ortodoxa Copta, Papa Shenouda III, declarou em que todos os templos e mosteiros coptas estão abertos à visitação pública e nada têm a esconder.

De fato, prédios como a “Igreja Suspensa”, do século IV, e a igreja de São Sérgio e São Baco, construída sobre uma caverna que teria abrigado Jesus, Maria e José durante a fuga para o Egito, estão entre as principais atrações turísticas do país. “Copta significa egípcio. Era assim que os egípcios eram chamados pelos árabes, antes da conquista islâmica, no século VII. Portanto, cristãos ou muçulmanos, a verdade é que todos os egípcios são coptas”, afirmou a professora Nancy.

Torres de minaretes de onde partem o chamado para as cinco orações diárias dominam paisagem na capital do Egito

História
Historicamente, os cristãos coptas estão no Egito desde o ano 42, quando uma primeira igreja foi fundada pelo evangelista São Marcos, em Alexandria. Apenas no ano 451, os grupos dividiram-se entre católicos coptas – católicos submetidos à jurisdição do Vaticano, mas que celebram suas cerimônias em com um rito próprio – e ortodoxos coptas, após um racha teológico sobre a natureza humana e divina de Cristo, no encontro de bispos chamado de Concílio de Calcedônia. Desde então, os ortodoxos elegem seu próprio papa, como Shenouda III, considerado sucessor de São Marcos.

As estatísticas sobre o número de ortodoxos coptas variam entre 15% e 20% do total população egípcia, que soma 81,7 milhões de habitantes. Há, ainda, comunidades de emigrantes que reúnem mais de 1 milhão de adeptos da religião nos Estados Unidos e mais de 500 mil no Sudão. No Brasil, estima-se em 5 mil o número de ortodoxos coptas. No Egito, há ainda cerca de 800 mil católicos e protestantes, além de mínimas comunidades judaicas. Segundo o censo oficial, porém, o número de habitantes não islâmicos no país caiu pela metade, em 100 anos.

Apesar da reclamação de que sofreriam restrições sociais e políticas no país, os ortodoxos estão representados em dois ministérios no governo do presidente Hosni Mubarak: Finanças e Meio Ambiente. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas de 1992 a 1996, Boutros Boutros-Ghali, é outro seguidor proeminente da religião.

Veículo que estava estacionado em frente a uma igreja cristã e explodiu no momento da saída dos fiéis, na noite de Ano Novo

Roosevelt lidera lista britânica de melhores presidentes dos EUA

Acadêmicos da Grã-Bretanha avaliam desempenho de 40 líderes americanos desde George Washington


O ex-presidente americano Franklin Roosevelt

Franklin Delano Roosevelt está no topo da primeira pesquisa feita com acadêmicos britânicos sobre o desempenho de 40 presidentes americanos desde George Washington.

Barack Obama não foi incluído na pesquisa, mas um levantamento interino indica que ele figuraria entre as 10 primeiras posições. George W. Bush está entre os 10 piores colocados, no 31° lugar.

A pesquisa, conduzida pelo Instituto para Estudo das Américas da Universidade de Londres, é a primeira do gênero feita fora dos Estados Unidos. Participaram 47 acadêmicos especializados em História e políticas dos EUA no levantamento.

Eles avaliaram o desempenho de cada presidente entre 1789 e 2009 (exceto Henry Harrison e James Garfield, que morreram pouco depois de assumir o cargo) em cinco categorias: Visão/implementação de uma agenda política, liderança doméstica, liderança nas relações exteriores, autoridade moral e significância histórica positiva de seu legado. Os participantes classificaram os presidentes em oito categorias, de 1 (ineficiente) a 10 (muito eficiente).

Desempenhos

Franklin D. Roosevelt (1933 a 45) ficou em primeiro em três categorias, visão/implementação de uma agenda política, liderança doméstica e liderança nas relações exteriores.

George Washington (1789-97) foi o que mais pontuou em autoridade moral e Abraham Lincoln (1861-65) foi o líder na categoria significância histórica positiva de seu legado. Apenas um presidente que ocupou o cargo desde 1960, Ronald Reagan (1981-89), figurou entre as 10 primeiras posições.

Levantamentos americanos geralmente colocam Lincoln no topo por seu desempenho como líder durante a Guerra Civil e abolindo a escravidão. Washington frequentemente fica em segundo lugar por ter estabelecido a autoridade do presidente.

Mas acadêmicos britânicos valorizaram os desafios enfrentados por Franklin D. Roosevelt durante a Grande Depressão da década de 1930 e a Segunda Guerra Mundial, incluindo a importância do New Deal - série de programas econômicos implementados no país durante os anos 30.

É possível que o desempenho de F.D. Roosevelt tenha sido mais valorizado pelo fato de a pesquisa ter sido conduzida em 2010, em meio a mais grave crise econômica desde os anos 1930.

Há outras diferenças significativas entre classificações feitas nos EUA e a britânica. John F. Kennedy (1961-63), classificado em sexto em alguns levantamentos americanos recentes, ficou na 15ª posição na pesquisa atual. Acadêmicos britânicos parecem ter responsabilizado Kennedy pela diferença entre sua retórica e as conquistas durante seu mandato.

Bill Clinton (1993-2001), ficou em 19° lugar, possivelmente por ter pontuado pouco no quesito autoridade moral. Seu legado econômico parece menos robusto, dez anos após deixar o cargo.

Expectativas

Tanto acadêmicos americanos como britânicos são influenciados pelos tempos atuais. As paixões do presente podem ter determinado a baixa colocação de George W. Bush, por causa de seu envolvimento no Iraque, mas ficar entre os 10 piores subestima a força de Visão/implementação de uma agenda política.

Da mesma forma, a oitava posição (interina) de Obama reflete suas conquistas legislativas e a importância simbólica de ser o primeiro presidente negro, embora é bom notar que nenhum presidente entre os 10 primeiros da pesquisa britânica tenha deixado de ser reeleito para um segundo mandato.

Uma similaridade nas pesquisas americanas e esta britânica está no mal posicionamento dos presidentes mais contemporâneos e o bom desempenho dos mandatários mais antigos. Dos cinco presidentes que comandaram o país entre 1977 e 2009, nenhum, exceto Reagan, está entre os 15 primeiros da lista. Em contrapartida, todos os cinco primeiros presidentes estão entre os 15 melhores colocados.

Poderia-se concluir que os líderes do passado eram melhores, mas a explicação mais provável é que a razão da diferença seja outra. Os enormes desafios políticos e organizacionais da presidência moderna tornam o trabalho bem mais difícil do que no passado. Nossas expectativas pode ser pouco realista quando confrontadas com os vários obstáculos que podem impedir o sucesso dos mandatários atuais.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Saladino o herói muçulmano

No século XII, o curdo saiu do anonimato ao reconquistar os territórios sagrados tomados pelos cristãos durante as cruzadas. Em uma carreira meteórica, ele se tornou sultão de um império que se estendeu da Síria ao Egito, passando pela disputada Jerusalém
"Glória a Deus que gratificou o Islã com esta vitória e que reconduziu esta cidade ao bom caminho após um século de perdição! Honra a este exército que Ele escolheu para consumar a conquista! E saudação a ti, Saladino Yussef, filho de Ayyub, que restituiu a esta nação sua dignidade injuriada!". Foi com essas palavras, na sexta-feira de 9 de outubro de 1187, uma semana depois da reconquista de Jerusalém, que o cádi de Damasco, Mohiedin Ibn al-Zaki, abriu o seu sermão na mesquita de Al-Aqsa, dentro da Cidade Santa. Seu discurso era um agradecimento a Salah al-Din Yusuf bin Aiub, conhecido no Ocidente como Saladino, responsável por tomar a cidade dos cruzados. Finalmente, depois de quase 90 anos de dominação ocidental e longos e sangrentos combates, os muçulmanos voltavam a ocupar um dos lugares mais sagrados do Islã, de onde o profeta Mohammad (Maomé) teria ascendido ao céu, cinco séculos antes.

Feitos como esse fizeram de Saladino um verdadeiro herói do mundo islâmico. O Ocidente o conheceu, em parte, recentemente, por intermédio do filme Cruzada (2005), de Ridley Scott. No entanto, a figura do sultão e estrategista curdo, nascido no ano de 1138 em Tikrit (atual Iraque), é muito mais ampla que uma aparição coadjuvante em um longa-metragem hollywoodiano. Até hoje ele é lembrado como um dos principais chefes militares muçulmanos, um símbolo da luta e da resistência contra a ocupação ocidental. Muitos são seus atributos, como bem descrevem vários historiadores árabes e europeus. Foi retratado como um bravo guerreiro no campo de batalha, um negociador astuto no campo da diplomacia, uma pessoa generosa com os vencidos e também um homem de muita sorte, atributo que o acompanharia por toda a sua vida, cercada de mitos e lendas.


O NASCIMENTO DE UM HERÓI

Foi em meio a intrigas, traições, avanços e batidas em retiradas que surge a figura de Saladino. Ele era filho de Ayyub (Jô, em português), daí o nome da dinastia aiúbida, da qual seria o fundador. Convidado por seu tio Chirkuh a conquistar terras egípcias e chegar ao Cairo (sede do califado xiita e da dinastia fatímida), ele entrou, aos 25 anos, como mais um anônimo e saiu, seis anos depois, como vizir do reino mais rico do mundo árabe. Saladino e seu tio serviram a Nuradin, filho de Zinke (comandante turco que reconquistou Edessa dos francos, no ano de 1144) e senhor da Síria, um dos mais fortes reinos do mundo muçulmano daquele momento.

Para Nuradin, a presença européia na região era considerada uma invasão e o xiismo, uma heresia. Por isso, ele conclamou um jihad contra os francos e os inimigos do sunismo, no caso, os xiitas fatímidas do Egito. Vale ressaltar que o termo jihad refere-se a um substantivo masculino e é erroneamente empregado no Ocidente como guerra santa. De forma simplificada, a palavra significa uma reação a uma ação, uma luta ou combate contra o mal, uma invasão, uma ofensa, a mentira, as injustiças, a opressão, um crime ou uma violência


Durante sua educação
em Damasco, Saladino
mostrou-se mais
interessado em teologia
do que nas práticas
militares. Imagem de
manuscrito do século XV

Foi com este pensamento que Saladino e Chirkuh partiram rumo ao Egito, onde o poder se alternava de mãos em mãos devido a disputas internas. O lugar era também objeto de extrema cobiça dos franj. Essa terminologia era usada, inicialmente, apenas para denominar os francos, mas acabou se tornando usual para se referir a todo indivíduo do Ocidente.


O CHAMADO DO PAPA

No final do século XI, Urbano II convocou os cristãos a libertarem a Terra Santa dos infiéis muçulmanos. Assim começaram as cruzadas, que conquistaram a região graças às intrigas e divisões internas das nações do Oriente Médio

As invasões dos reinos muçulmanos do Oriente foram colocadas em prática a partir do ano de 1096. Era uma resposta ao apelo do papa Urbano II, que, no final do ano anterior, durante o Concílio de Clermont- Ferrand, na França, conclamou os cristãos a tomarem parte em uma guerra a serviço de Deus, com o objetivo de livrar a Terra Santa do domínio dos "infiéis". O argumento era ajudar os peregrinos cristãos que tinham dificuldade de acesso aos lugares sagrados e reconquistar Jerusalém, que desde o ano 638 estava sob domínio islâmico. Para aqueles que aceitassem o árduo desafio, ficava a promessa de indulgência plena (perdão dos pecados) e a promessa de salvação para aqueles que morressem em combate.

As palavras do pontífice satisfaziam a vontade de segmentos importantes da sociedade européia da época. Era uma chance, por exemplo, para que nobres sem-terra e sem direito à herança conseguissem acesso à propriedade e a almejadas riquezas. Para a igreja, era uma oportunidade de frear a expansão árabe, cuja religião já marcava forte presença no Norte da África, na Ásia Central e até mesmo na Europa, na Península Ibérica. Para o europeu comum, para quem a palavra da igreja era o eco da própria vontade divina, a simples promessa de salvação valeria qualquer sacrifício.

Naquele instante, o mundo árabe vivia uma supremacia frente à Europa. Suas cidades eram pólos de comércio e conhecimento, se destacando em áreas como matemática, astronomia e medicina. O Cairo, no Egito, era a jóia desse universo. Estima-se que, no limiar do século XI, era a maior aglomeração populacional do mundo, abrigando mais gente que Paris, Veneza e Florença juntas, que eram as maiores metrópoles européias da época. No entanto, ainda que poderoso, esse universo estaria fadado a ruir em um primeiro momento, devido a intrigas e divisões internas de seus governantes.

A corte bizantina, por conta da proximidade, conhecia um pouco melhor aquele universo. Diferentemente dos cristãos do Ocidente, que por ignorância ainda guardavam a imagem do muçulmano de séculos passados, os bizantinos sabiam que aquele vasto território islamizado que tinham na sua retaguarda oriental não se tratava de algo homogêneo. Eles sabiam que o mundo islâmico estava dividido entre ortodoxos sunitas, cujo califa (líder nas questões civis e religiosas) ficava em Bagdá, e xiitas, com califado no Egito.

Bagdá, e xiitas, com califado no Egito. Além disso, tratava-se de dois impérios, sendo um controlado pela dinastia fatímida (xiita), que governava o Egito e a Palestina, e outro pelos seljúcidas, seguidores do sunismo, que dominavam Síria, Arábia, Jézira (Mesopotâmia), Pérsia e que continuava a avançar pela Ásia Menor. No entanto, apesar desse formato de império, eram reinos que gozavam de relativa independência, cujo elo principal não era o grupo étnico e sim a vertente religiosa. Foi a ausência de um poder centralizado forte e a falta de um objetivo comum que permitiram a queda desses territórios diante dos cruzados, até que esses atingissem seu fim: Jerusalém.

Quando, por exemplo, os primeiros europeus bateram às portas do rei Kilij Arslan, que governava o sultanato seldjúcida de Rum (atual Turquia), cuja capital era Nicéia, ele não tinha com quem contar. Depois de uma vitória fácil contra uma turba de maltrapilhos camponeses comandados por um tal de Pedro, o Eremita, e um nobre sem-terra, Gautier Sans-Avoir (sem vintém), o jovem monarca, então com 17 anos, menosprezou a massa de guerreiros louros que continuava a chegar, concentrando-se na vizinha Bizâncio. Sua preocupação maior era o conterrâneo Danishmend Ghazi, com quem estava em constante conflito. Quando ambos perceberam o tamanho do problema e resolveram se juntar, já era tarde demais.

O mesmo aconteceu com a bela cidade de Antioquia, que desde 635 estava sob poder árabe. Foi ali que, de acordo com a Bíblia, Paulo pregou pela primeira vez em uma sinagoga e que os seguidores de Jesus foram chamados, também pela primeira vez, de cristãos. A cidade era a maior da Síria (hoje rebatizada de Antaquia e pertencente à Turquia) e era controlada pelo velho Yaghi-Siyan, leal aos sultões seldjúcidas. Quando os soldados de Antioquia avistaram a nuvem de poeira deixada pelos cruzados era dia 21 de outubro de 1097. Só cairia depois de 200 dias de cerco.

Mais uma vez, o monarca muçulmano recorreu à ajuda dos seus iguais. Pediu insistentemente apoio aos senhores de Alepo e Damasco, sem sucesso. Esses eram irmãos, mas estavam mais preocupados em resolver querelas entre eles do que fazer uma coalizão contra forasteiros que já estavam a poucos dias de distância. Siyan também recorreu ao poderoso emir Karbuka, que governava a rica Mossul, distante duas semanas de caminhada. Mas Karbuka preferiu socorrer primeiro a Edessa, que já tinha caído em poder dos invasores. Depois de três semanas de cerco infrutífero, percebeu o erro e se voltou para Antioquia, que a essa altura já ardia em chamas. Ainda assim, os dois exércitos se enfrentaram em junho de 1098, com uma humilhante derrota para as forças do emir. Com a queda de Antioquia e a aniquilação do exército de Mossul, estavam eliminados os obstáculos interpostos entre os europeus e Jerusalém, que cairia em julho de 1099, com direito a massacre de muçulmanos, judeus e até mesmo cristãos orientais.

Após anos de batalha e três campanhas, as forças sírias saíram vencedoras. Chirkuh era a pessoa mais apropriada para governar as novas possessões de Nuradin, mas morreu vítima de um suposto mal-estar. Para ocupar a posição de vizir (governador) da extensão egípcia do império sírio, foi escolhido, intencionalmente, aquele que parecia o menos capaz para a empreitada: Saladino. "Era o mais jovem e parecia ser o mais inexperiente e o mais fraco dos emires do exército". Essa era a opinião dos conselheiros, de acordo com os relatos do historiador árabe Ibn al-Athir. Mas o curdo se mostrou justamente o contrário. E, em pouco tempo, consolidou sua autoridade.

Castelo de Saladinsburg, na Síria, nomeado em homenagem ao líder curdo
O sucesso de Saladino no Egito era fonte de preocupação para Nuradin. O clima de tensão cresceu entre pupilo e mestre, a ponto de o segundo recusar, por diversos momentos, um encontro direto com o senhor da Síria. Em Damasco, o filho de Ayyub foi acusado de insubmissão e traição. Não é para menos. Por anos, recusou-se a colocar fim ao califado xiita, que havia dois séculos reinava ali. No lugar disso, preferiu "apenas" eliminar funcionários fatímidas que não lhe foram confiáveis. Quanto ao califa Al-Adid, preferiu não tocar nele temendo uma reação da população local, o que colocaria em risco sua posição.

O vizir Saladino preferiu esperar. Além de desenvolver uma sincera amizade com Al-Adid, que tinha apenas 18 anos, sabe que, apesar de sua jovialidade, é uma pessoa frágil e doente. Portanto, para que mexer em um vespeiro se supunha que a natureza lhe faria o trabalho que deveria ser dele? De fato, o califa morreu dois anos depois da entrada do curdo no Cairo, pondo fim à dinastia fatímida.


Castelo de Saladinsburg, na Síria, nomeado em homenagem ao líder curdo


Ilustração do francês François Guizot (1787- 1874), datada de 1883, mostra os cristãos da recém-conquistada Jerusalém desfilando para Saladino

Nesse meio tempo, teve de ter habilidade e diplomacia para não entrar em um confronto direto com o seu mestre de Damasco. Em pelo menos um momento, Nuradin se dispôs a invadir o Egito. Saladino tinha homens dispostos e força suficiente para suplantar tal investida. A decisão que tomaria poderia justificar a pecha de ambicioso, já há muito empregada pelos funcionários de Damasco, ou servo fiel e leal, como seu pai fora a vida inteira. Foi justamente Ayyub quem alertou o filho de que o tempo estava ao seu favor, sendo equivocado medir forças com quem devia submissão.

Até hoje, Saladino é considerado um dos principais chefes muçulmanos, símbolo de luta e resistência

Em vez da espada, o então vizir do Egito preferiu empunhar uma pena e escrever para Damasco. Na carta, ressaltou que o Egito pertencia a Nuradin e que bastaria que o seu senhor lhe enviasse um camelo ou um cavalo para que ele, Saladino, fosse até a Síria como homem humilde e submisso. A medida foi suficiente para aplacar a desconfiança de Nuradin, mas despertou em Saladino a desconfiança de que uma investida viria de fato a acontecer. Antecipando-se a esse momento, pediu para que seu irmão, Turanshah, conquistasse o Iêmen, ordem que foi cumprida. Doravante, esse país, localizado na extremidade da Península da Arábia, seria um porto seguro caso ele e sua família precisassem de abrigo. Jamais precisaram.

A "sorte" que levou Saladino ao posto de vizir do Egito, com direito ao título de al-malik al-nasser (o rei vitorioso), foi a mesma que o conduziu, mais tarde, ao posto do seu mestre intelectual. Com a morte de Nuradin, em 1174, o curdo se tornou sultão de um reino que já se estendia do Egito até a região central da atual Turquia. E, sem se fazer de rogado, levantou a mesma bandeira defendida por seu antigo senhor: unificação do mundo árabe, mobilização dos muçulmanos para a reconquista das terras ocupadas, sobretudo Jerusalém.

Aparentemente, tudo conspirou a favor de Saladino. Depois de Chirkuh e Nuradin, foi a vez de Amaury, rei de Jerusalém, morrer e passar o trono para Balduíno IV, um jovem de 13 anos que morreu de lepra aos 24 e passou o comando a Guy de Lusignan. O único soberano capaz de rivalizar com as forças de Saladino, por possuir um poderoso exército, era Manuel de Constantinopla. Mas os homens de Manuel acabaram sendo esmagados pelos soldados de Kilij Arslan II, neto de Nuradin, e o rei bizantino morreu pouco tempo depois, fato que deixou a região fragilizada e incapaz de se reorganizar. Com todas essas brechas do destino, Saladino só teria de esperar a hora ideal para tomar Jerusalém dos franj.

O 4 DE JULHO MUÇULMANO

O momento certo para Saladino surgiu em 4 de julho de 1187, após a conquista da Mesopotâmia. Estrategicamente, o exército de Saladino ficou à espera dos soldados franj, posicionado em um ponto elevado da região, tendo às suas costas o lago de Tiberíades. Para não morrer de sede, os soldados de Jerusalém teriam de lutar, e muito, para vazar aquele bloqueio. Esse era o cenário da Batalha de Hattin, nome herdado da pequena vila localizada ali próximo. Naquele dia, totalmente sedentos, cansados e desnorteados, os 12 mil soldados do rei Guy de Lusignan foram cercados e esmagados.

Como prêmio, Saladino se apoderou de uma cruz trazida como amuleto pelos franj, que acreditavam ser a mesma na qual Cristo teria sido crucificado. A partir dessa vitória, o caminho foi aberto para Jerusalém. Mas nada foi tão fácil quanto parecia, e a entrada na cidade só se deu mais de dois meses depois. Antes de bater às portas da Cidade Santa, o sultão foi tomando todas as posições dos cruzados, como Tiberíades, a cidade de Acre, Galiléia, Samaria, Naplusa, Haifa, Nazaré, Jafa, Saida (depois de 77 anos de ocupação), Beirute, Jibail, Ascalon, Gaza e, fi- nalmente, Jerusalém, que na época era liderada por Balian d'Ibelin.

Em 2 de outubro de 1187 (ou 27 rajab do ano 583 da hégira), Saladino assinou um acordo de salvo-conduto a todos os moradores da Cidade Santa, e Balian entregou a jóia da coroa ao filho de Ayyub. Finalmente, os muçulmanos puderam orar nos lugares sagrados da cidade como senhores e não mais como incômodos inquilinos. Naquele mesmo dia, uma cruz instalada na cúpula do Rochedo foi retirada, e a bela mesquita de Al-Aqsa, que havia sido transformada em igreja, voltou a ser lugar de culto muçulmano. Seria ali, depois de aspergida com águas de rosa, que o cádi de Damasco, Mohiedin Ibn al-Zaki, saudaria Saladino pela mais nobre de suas conquistas. "Allahou akbar" (Deus é grande) era a frase mais ouvida na Cidade Santa, nos dias que sucederam à sua retomada.


Imagem ao Lado, mostra os cristãos durante a Primeira Cruzada. Pintura abaixo representa a Batalha de Hattin. A vitória de Saladino significou o ponto de virada para os muçulmanos na reconquista dos reinos tomados pelos católicos


UMA VIDA EM MEIO SÉCULO

A conquista de Jerusalém pelos muçulmanos foi um duro golpe para a moral cristã. Não é à toa que pouco mais de um ano depois, o papa Gregório VIII convocou a Terceira Cruzada para a reconquista da Terra Santa. Foi a maior força cruzada já reunida desde 1095, mas não conseguiu o seu fim, apesar de algumas reconquistas.

Ciente de que em uma guerra nem sempre os acordos são respeitados e que entre os perdedores havia o medo iminente de um massacre, coube mais uma vez a Saladino dar mostras de sua sensatez, permitindo a peregrinação aos fiéis nãomuçulmanos, aumentando a guarda dos lugares de culto dos cristãos, como a Igreja do Santo Sepulcro, e dando ordens rigorosas a seus homens para que não perseguissem quaisquer cristãos.

Saladino manteve-se soberano de Jerusalém e, já na sua velhice, seguiu para Damasco, sua cidade preferida, onde morreu em 4 de março de 1193, aos 55 anos. Para os padrões da Idade Média, em que devido a guerras, doenças e fome e a expectativa de vida girava em torno de 30 anos, pode-se dizer que, conforme o termo bíblico, foi farto em dias.

Para quem não queria a glória militar e por longos anos tinha se dedicado ao estudo da teologia islâmica, Saladino chegou ao fim da vida como modelo do salvador muçulmano. É certo que, como homem e elemento do seu tempo, estava sujeito a derrotas e atos que podem parecer exagerados para os dias de hoje.


Pintura do séc. XVII mostra a Batalha de Montgisard (1117), em que o exército de Saladino foi destruído pelos homens de Balduíno IV e Raynald de Chatillon

A CRUZADA DOS REIS
Depois de perder a Cidade Santa para Saladino, a realeza européia uniu forças para tentar reaver o poder sobre os territórios islâmicos

A tomada de Jerusalém por Saladino significou um duro golpe para o Ocidente cristão. Mas os europeus não se contentaram em perder a sua jóia do Oriente sem antes tentar retomá-la usando todas as forças possíveis e lançaram a terceira cruzada. Dessa vez, o movimento envolveu os monarcas dos principais reinos da Europa: Frederico I, o Barba-Rossa, imperador do Sacro Império Romano Germânico; Filipe II, da França; e Ricardo I, o Coração de Leão, da Inglaterra. O objetivo era reconquistar os territórios perdidos, a Cidade Santa e a cruz perdida na Batalha de Hattin, que os europeus acreditavam ser aquela na qual Cristo fora crucificado.

Mais uma vez, além da capacidade de comando, Saladino demonstrou que era um homem de sorte. Como explicar, por exemplo, o afogamento de Barba-Roxa em um riacho onde, segundo o cronista Ibn al-Athir, "a água bate apenas nos quadris"? A provável parada cardíaca do monarca, em 10 de junho de 1190, interrompeu também o avanço de um exército de mais de 200 mil homens, que se dispersou.

A essa altura, desde agosto do ano anterior, Saladino já se encontrava na cidade fortificada de Acre, que estava sob cerco. A liderança dos seus adversários é, inclusive, de Guy de Lusignan, ex-rei de Jerusalém, outrora prisioneiro do sultão, e que havia sido solto pouco tempo antes com a promessa de não voltar a lutar contra os muçulmanos. O filho de Ayyub sabia que não podia confiar na palavra de nenhum franco. Não foram poucas as vezes que eles haviam traído palavras e acordos.

No entanto, o que seria uma grande investida para pôr fim à presença islâmica na região serviu para consolidar em definitivo a vitória de Saladino. Graças, em parte, à rivalidade que, dessa vez, azedava a relação entre os europeus, levando, inclusive ao assassinato do marquês Conrado de Monferrat a mando de Ricardo I. Outro fator importante foi a necessidade que esses monarcas tinham de voltar para suas terras.

Saladino soube muito bem jogar com isso. Ainda que tenha deixado Acre cair nas mãos dos cruzados, depois de um cerco que durou dois anos, sabia que os líderes europeus não ficariam na região por muito tempo. O primeiro a voltar foi Filipe II, em agosto de 1191. Ricardo ainda permaneceu por mais tempo, na expectativa de entrar vitorioso em Jerusalém, mas não conseguiu. Foi vencido pelo cansaço e assinou, em setembro do ano seguinte, um desvantajoso acordo de paz com validade de cinco anos. Em 1192, deixou a Terra Santa sem realizar o sonho de conhecer o Santo Sepulcro.


Miniatura medieval mostra o rei-cruzado Frederico Barbarossa (1122 - 1190), que morreu afogado antes de chegar à Palestina

Dos insucessos militares, o mais doído foi a Batalha de Montgisard, quando, em 25 de novembro de 1187, seu exército foi tomado de surpresa pelo de Balduíno IV, de Jerusalém, e poucos sobreviveram. Há números que apontam que Saladino contava com 27 mil homens e que apenas 10% deles conseguiram sair vivos do combate.


Acima, pintura medieval mostra Ricardo Coração de Leão enfrentando Saladino. Acima, gravura do séc. XIX representa Ricardo partindo para sua cruzada. O rei inglês venceu Saladino e conseguiu um acordo para o livre movimento de peregrinos a em Jerusalém

Com a morte de Saladino, seus domínios fragmentaram-se em governos mais fracos

O sultão de modos afáveis, pequeno e de aparência frágil, apesar de sua reconhecida generosidade, em pelo menos dois momentos negou a misericórdia aos seus vencidos. Um deles foi em 1179, na tomada do castelo de Bait al- Ahazon. Ali teria ordenado a execução de 700 prisioneiros. Cerca de oito anos depois, pós-Batalha de Hattin, foi ele próprio o algoz de Renaud de Chatillon, a quem jurara matar com as próprias mãos. Nesse mesmo dia, os cavaleiros templários e hospitalários, inimigos mortais de Saladino, foram vítimas da mesma sorte. É um claro exemplo que a misericórdia do filho da Ayyub tinha limite e que não poderia faltar com a sua palavra ou demonstrar fraqueza diante dos seus comandados.

Com a morte de Saladino, seus domínios, que iam da Síria ao Egito, fragmentam-se em governos enfraquecidos, controlados por membros de sua família, os aiúbidas. Saladino deixou 18 filhos, sendo apenas um deles mulher, e dois irmãos. O reino do Egito foi o mais bem-sucedido, tendo um período de crescimento econômico e prosperidade graças à presença de mercadores italianos, franceses e catalães, que operaram com os portos sob controle aiúbida. Além disso, o Egito se tornou um centro de erudição e literatura árabe, e dividiu com a Síria a primazia cultural naquela região, conservando-a até o período moderno.